Teologia · Apologética
Anatomia da idolatria do feminino e o caso mariano
Neste artigo 8 subtítulos
I. A regra que decide tudo
Idolatria é a atribuição religiosa, a uma criatura, daquilo que Deus reservou para si. A definição é curta e suporta todo o peso do que virá, porque nela não entra nenhuma referência à intenção do adorador, à antiguidade da prática, à beleza do objeto ou à sinceridade do afeto. O que a definição exige é apenas isto: que se identifique o destinatário do ato e o conteúdo do ato. Se o conteúdo pertence a Deus e o destinatário é criatura, houve idolatria, ainda que o praticante ame Jesus Cristo, recite o credo niceno e chore ao pronunciar o nome do Salvador.
Daqui decorre a regra que governa o culto inteiro. O culto é ato de submissão religiosa; submissão pressupõe autoridade; autoridade sobre a consciência pertence somente a quem criou a consciência. Segue-se que apenas Deus institui culto, e que todo ato religioso não instituído por Deus é ato de autoridade usurpada, independentemente de quem o pratique. A Escritura fixa isso em termos que não deixam margem: "Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás" (Deuteronômio 12.32). A proibição alcança o acréscimo com a mesma força com que alcança a subtração, e a razão é óbvia para quem entendeu a definição: acrescentar culto é legislar sobre a consciência alheia em matéria que pertence exclusivamente a Deus.
O leitor formado em polêmica popular espera agora que se demonstre que a prática romana tem origem pagã, como se a genealogia decidisse a questão. A genealogia não decide nada. Uma prática não precisa vir de Babilônia para ser idólatra; basta que ela dirija à criatura o que Deus reservou. E aqui convém desmontar de antemão a suposição que sustenta metade da apologética protestante e toda a apologética romana: a suposição de que a idolatria se reconhece pela negação verbal do Deus verdadeiro. Israel, no sopé do Sinai, não abandonou o nome do SENHOR. Arão fundiu o bezerro, construiu um altar diante dele e apregoou: "Amanhã será festa ao SENHOR" (Êxodo 32.5). O nome permaneceu intacto, a liturgia foi convocada em honra do Deus da aliança, e a nação inteira apostatou. O paganismo interno preserva o vocabulário e substitui o objeto; é por isso que ele sobrevive dentro de instituições que confessam ortodoxia trinitária e mantêm, no papel, a suficiência de Cristo.
O que este artigo pretende demonstrar tem, portanto, forma dedutiva e não histórica: pretende mostrar como uma imagem religiosa se fabrica, por que o feminino é o material preferencial dessa fabricação, e o que resulta quando o produto acabado é submetido ao único tribunal competente, que é a proposição revelada. O caso mariano entra como o exemplar mais completo, mais documentado e mais tenazmente defendido da espécie, e entra na condição de amostra, jamais na condição de objeto, porque o que se julga aqui é o procedimento que o produziu e que continua produzindo outros.
II. Anatomia da imagem idólatra
Um ídolo não nasce pronto; ele se monta por etapas, ao longo de séculos e por mãos que raramente sabem o que constroem, e cada etapa parece inocente enquanto observada isoladamente, o que explica por que tantos homens honestos atravessaram a série inteira sem perceber onde tinham chegado. A reconstrução analítica desse processo é o núcleo deste artigo, porque quem enxerga o mecanismo deixa de precisar de argumentos avulsos contra cada dogma particular e passa a dispor de um critério aplicável a qualquer culto que a instituição venha a produzir amanhã.
Primeira etapa: um predicado verdadeiro. A cadeia sempre começa com algo que a Escritura de fato afirma. Maria concebeu e deu à luz o Verbo encarnado. A afirmação é verdadeira, e negá-la seria negar a encarnação. O ídolo nunca se funda numa mentira pura, porque uma mentira pura seria rejeitada; ele se funda numa verdade que será posteriormente deslocada de função.
Segunda etapa: a conversão do relacional em substancial. O predicado "mãe do Senhor" descreve uma relação histórica, situada no tempo, terminada quanto ao seu ato. A operação idólatra transforma essa relação numa qualidade permanente e ontológica da criatura, da qual passam a derivar consequências. Ad Caeli Reginam executa essa conversão diante do leitor, e com todas as letras: "Daqui se segue logicamente que Maria é rainha, por ter dado a vida a um Filho".1Pio XII, Ad Caeli Reginam, n. 33. Texto oficial em português, vatican.va. O documento cita ainda João Damasceno para dizer que ela "tornou-se verdadeiramente senhora de toda a criação, no momento em que se tornou Mãe do Criador".2Ibid., n. 33, citando João Damasceno, De fide orthodoxa, l. IV, c. 14. Note-se o movimento: de um fato relativo à concepção do Cristo se deduz uma jurisdição sobre a criação inteira. Nenhuma proposição revelada opera essa passagem, e nenhuma regra lógica a autoriza; a maternidade de um rei não confere realeza, como a maternidade de um juiz não confere jurisdição.
Terceira etapa: a figuração. A qualidade recém-atribuída precisa de suporte sensível, e recebe rosto, trono, coroa, manto e cortejo. Ad Caeli Reginam descreve o processo com satisfação: desde o concílio de Éfeso a arte cristã representa Maria "como rainha e imperatriz, sentada num trono e adornada com as insígnias reais, de coroa na cabeça, rodeada da corte dos anjos e santos".3Ibid., n. 31. Este é o instante em que a doutrina deixa de depender de texto e passa a depender de artesãos.
Quarta etapa: o gesto. Uma imagem entronizada convoca postura. Ninguém permanece de pé diante de um trono. O joelho dobra, a vela acende, os lábios murmuram, e o corpo aprende antes que o intelecto examine. O gesto é pedagogia sem argumento, e ensina com uma eficácia que nenhum tratado alcança, porque ensina sem que o aluno perceba que está sendo ensinado.
Quinta etapa: a nomeação. O gesto exige justificativa retroativa, pois o fiel que se ajoelha precisa saber diante de quem se ajoelha. Nasce o título. Senhora, Rainha, Dominadora, Advogada, Auxiliadora, Medianeira. Ad Caeli Reginam enfileira dezenas desses títulos recolhidos de homilias, hinos e liturgias, e conclui que os teólogos, "recolhendo a lição desses e outros inumeráveis testemunhos antigos", chamaram a Virgem "rainha de todas as coisas criadas, rainha do mundo e senhora do universo".4Ibid., n. 21.
Sexta etapa: o ofício. Um título honorífico é instável; ele tende a converter-se em função. A rainha que apenas se chama rainha logo passa a reinar, e a que reina passa a distribuir. Da mesma união com Cristo, diz a encíclica, "nasce aquele poder real, pelo qual ela pode dispensar os tesouros do reino do Redentor divino".5Ibid., n. 37.
Sétima etapa: o dogma. A função exige garantia institucional, e a garantia vem sob anátema. O processo se fecha, e o que começou como pincelada num ábside termina como proposição de fé obrigatória cuja negação faz naufragar a alma.6Pio XII, Munificentissimus Deus, n. 45: quem ousar negar ou pôr em dúvida a definição, "saiba que naufraga na fé divina e católica". Texto oficial em português, vatican.va.
Percorridas as sete etapas, cabe formular a questão que o processo inteiro foi construído para evitar, a saber, em que ponto entrou uma proposição revelada por Deus, e a resposta é que não entrou em ponto algum. Entraram relação histórica, dedução inválida, tinta, joelho, título, ofício e decreto. E não é preciso conjecturar sobre isso, porque Roma o declara. Munificentissimus Deus, ao arrolar os fundamentos da Assunção, apresenta como testemunho da fé "os inumeráveis templos consagrados a Deus em honra da assunção de nossa Senhora, e as imagens neles expostas à veneração dos fiéis, que mostram aos olhos de todos este singular triunfo da santíssima Virgem".7Ibid., n. 15. A imagem é citada como prova. Ad Caeli Reginam repete o procedimento ao declarar que "dos testemunhos da antiguidade cristã, das orações da liturgia, da inata devoção do povo cristão, das obras artísticas, de toda a parte recolhemos expressões que nos mostram que a virgem Mãe de Deus se distingue pela sua dignidade real".8Ad Caeli Reginam, n. 44. Obras artísticas figuram como fonte de conhecimento teológico, lado a lado com a liturgia e o sentimento popular.
O mesmo documento registra ainda o gesto que resume tudo: "Os pontífices romanos não deixaram de favorecer esta devoção coroando pessoalmente ou por meio de legados as imagens da virgem Mãe de Deus".9Ibid., n. 32. Um homem coloca uma coroa de metal sobre a cabeça de uma estátua; a estátua coroada difunde-se; a difusão vira consenso; o consenso vira argumento; o argumento vira dogma da realeza. A coroa material precede a coroa doutrinal e a produz.
Está aí a tese que dá nome a este artigo, e ela pode ser enunciada como lei geral. Na revelação, a proposição precede a imagem, e a imagem, quando existe, é ilustração subordinada de algo já dito por Deus. Na idolatria, a imagem precede a proposição, e a proposição é racionalização posterior de algo que os olhos e os joelhos já aceitaram. Toda a diferença entre culto e superstição cabe nessa ordem de precedência. Por isso a proibição do Sinai insiste no que faltou ver: "Guardai, pois, com diligência as vossas almas, pois nenhuma semelhança vistes no dia em que o SENHOR vosso Deus em Horebe falou convosco, do meio do fogo" (Deuteronômio 4.15). Deus falou e não se deixou ver, e a proibição das imagens é o corolário exato dessa economia. Onde não houve semelhança, houve palavra; onde se fabrica semelhança, a palavra é dispensada.
III. Por que o feminino
O mecanismo descrito acima é formal e poderia operar sobre qualquer criatura, como de fato operou sobre anjos, mártires, relíquias e lugares, sem que nenhum desses materiais chegasse a render o que rendeu o feminino. Resta explicar por que a mãe celeste se tornou o material mais fértil dessa fabricação, e a resposta precisa ser teológica em vez de psicológica, sob pena de o artigo entregar suas armas ao mesmo adversário que pretende julgar.
A razão principal é a fuga do juízo. A mediação instituída por Deus é sacerdotal, e sacerdócio na Escritura é ofício judicial antes de ser ofício afetivo. Ele pressupõe pecado imputado, exigência de justiça, altar, sangue, morte substitutiva e satisfação. Cristo intercede porque satisfez; sua compaixão jamais aparece dissociada de sua obra, e o autor de Hebreus prende as duas coisas na mesma frase ao dizer que ele "pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles" (Hebreus 7.25). O acesso existe porque a justiça foi satisfeita, e não apesar dela.
O pecador natural quer o acesso sem a satisfação. Ele deseja uma instância celestial que interceda por afeto puro, sem cobrança, sem tribunal, sem a exigência intolerável de que o pecado seja punido em alguém. Nenhuma figura oferece essa promessa com mais eficácia do que uma mãe, porque a maternidade é a única relação humana que o senso comum imagina como incondicionalmente indulgente. Uma mãe celeste é a personificação da misericórdia divorciada da justiça, e é exatamente por isso que ela se instala, inclusive numa relação que poderíamos definir como mística feminina. Ad Caeli Reginam convida os fiéis a "aproximar-se do trono da misericórdia e da graça, para pedir à nossa Rainha e Mãe socorro na adversidade, luz nas trevas, conforto na dor e no pranto".10Ibid., n. 46. A expressão vem de Hebreus 4.16, onde designa o trono do próprio Deus, ao qual o crente chega pelo sumo sacerdote que passou pelos céus. Transportada para a Rainha, ela documenta a operação inteira num único deslocamento de referente.
A consequência dessa estrutura é uma blasfêmia silenciosa que nenhum manual precisa formular para que a devoção a pratique. Se o pecador procura a mãe porque teme o Filho, então o Filho é menos acessível que a mãe, e a misericórdia de Cristo precisa de administração maternal para chegar aos homens. O sistema produz essa conclusão por necessidade lógica, e as advertências oficiais contra os excessos não a desativam, e nem poderiam assim fazer. É Cristo quem chama os cansados e oprimidos; é Cristo quem se compadece de nossas fraquezas; é Cristo quem ordena que nos cheguemos com confiança. Erguer uma intermediária para tornar Cristo acessível é acusá-lo, sem dizê-lo, de ternura insuficiente.
A segunda razão é a imanência. O Deus que fala é transcendente, e sua fala impõe distância moral: quem fala ordena, quem ordena julga, quem julga separa. A mãe divinizada não fala; ela olha. Sua comunicação é olhar, colo, manto, presença corporal e proximidade material, e a nenhuma dessas coisas se pode desobedecer, porque nenhuma delas contém proposição. Uma imagem que olha é o oposto exato de uma palavra que ordena. Aqui as duas primeiras seções deste artigo se encontram: o feminino divinizado é a forma acabada da religião da imagem, porque é a única forma de sagrado que dispensa completamente a proposição sem parecer vazia. O devoto sai do santuário confortado e sem ter recebido uma única sentença que possa julgá-lo.
Resta desfazer o equívoco que a crítica costuma provocar. Nada disso constitui ataque à mulher ou à feminilidade, e quem assim ler inverteu a acusação. A Escritura honra a mulher precisamente ao recusar divinizá-la, porque a criatura só permanece inteira enquanto permanece criatura. A sacralização do feminino é a operação que mais eficazmente destrói a mulher real, já que troca uma pessoa concreta, pecadora e responsável por um símbolo cósmico que nenhuma mulher viva pode ser, e diante do qual toda mulher viva será necessariamente insuficiente. Roma coroou uma imagem e, no mesmo ato, apagou a serva de Nazaré.
IV. A conveniência convertida em método
Chegamos ao ponto em que a fabricação precisa de justificativa formal diante de homens instruídos, e é aqui que a mariologia expõe seu flanco mais desprotegido, porque o argumento de que dispõe tem nome escolástico, forma reconhecível e invalidade demonstrável em duas linhas. O procedimento chama-se potuit, decuit, ergo fecit, e se enuncia assim: Deus podia fazê-lo, era conveniente que o fizesse, logo o fez.
O procedimento não é uma reconstrução hostil; ele está impresso nos documentos. Munificentissimus Deus reproduz com aprovação a passagem de João Damasceno que o executa em cadeia: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte. Convinha que aquela que trouxe no seio o Criador encarnado, habitasse entre os divinos tabernáculos. Convinha que morasse no tálamo celestial aquela que o Eterno Pai desposara".11Munificentissimus Deus, n. 21, citando João Damasceno, Encomium in Dormitionem Dei Genetricis, hom. II, 14. O mesmo documento chancela a regra metodológica formulada por Suárez, e a chancela como regra: "Os mistérios da graça que Deus operou na virgem Maria não se devem medir pelas leis ordinárias, senão pela onipotência divina, suposta a conveniência do fato e a não contradição ou repugnância com as Escrituras".12Ibid., n. 37, citando Francisco Suárez, In tertiam partem D. Thomae, q. 27, art. 2, disp. 3, sect. 5, n. 31.
Examine-se a regra com atenção, porque ela é uma confissão. O critério de verdade proposto tem dois membros: conveniência percebida pelo teólogo e ausência de contradição explícita com a Escritura. O primeiro membro é subjetivo e ilimitado, já que qualquer honraria imaginável parecerá conveniente a quem já venera o objeto. O segundo membro inverte o ônus da prova, pois transforma o silêncio da revelação em permissão. Sob essa regra, tudo o que a Escritura não proibir nominalmente pode ser afirmado como fato acontecido no céu, e a fé passa a ter por objeto as inferências estéticas de seus próprios doutores. Claro que nessa observação estamos sendo demasiadamente caridosos, porque a primeira tábua da lei proíbe explicitamente.
A invalidade formal é trivial e por isso mesmo devastadora. De "seria conveniente que P" não se segue P, em nenhum sistema lógico, sob nenhuma interpretação de conveniência. Conveniência é juízo de adequação estética ou moral formulado por uma mente criada acerca do que outra mente deveria ter feito; ela pertence inteiramente à ordem do desejo, e o desejo não produz fatos. Um homem pode julgar convenientíssimo que seu pai lhe tenha deixado herança; o juízo não deposita um centavo em sua conta.
E o próprio documento fecha a única saída que restaria. Ao tratar do fundamento do dogma, Munificentissimus Deus declara que o mistério da glorificação celestial do corpo de Maria "não podia ser conhecido por nenhuma faculdade da inteligência humana só com as forças naturais" e que é, portanto, "verdade revelada por Deus".13Ibid., n. 12. A admissão é fatal. Se o fato não é acessível à razão natural, ele só pode ser conhecido por revelação; se só pode ser conhecido por revelação, exige-se a proposição revelada; e a proposição revelada não existe, porque nenhum texto das Escrituras afirma que o corpo de Maria foi elevado ao céu. Roma reconhece que precisa de revelação, não apresenta revelação, e define assim mesmo.
O que ela apresenta em lugar da proposição é o consenso. O documento sustenta que a "singular concordância dos bispos e fiéis" manifesta "de modo certo e imune de erro, que tal privilégio é verdade revelada por Deus".14Ibid., n. 12. Isto é petição de princípio elevada à condição de método: a crença é oferecida como prova do objeto da crença. Se o consenso dos crentes basta para estabelecer que algo foi revelado, então toda religião majoritária da história está estabelecida, e o critério destrói a si mesmo antes de destruir qualquer outra coisa. O documento não ignora o problema; ele o resolve por decreto, invocando a assistência infalível do magistério, o que apenas desloca a petição de princípio um degrau acima sem alterar sua forma.
Note-se, por fim, a ordem em que os fundamentos aparecem na conclusão da constituição: a fé da Igreja universal, o pedido quase unânime dos bispos, a alma dos fiéis, o culto litúrgico antiquíssimo, a concordância com outras verdades e a sabedoria dos teólogos.15Ibid., n. 41. A Escritura é mencionada, sem que se produza a proposição. A arquitetura probatória inteira repousa sobre o que a instituição já fazia. É o mecanismo da seção II operando em escala de séculos: primeiro a festa, depois a imagem, depois o título, depois o dogma, e a Palavra convocada ao final para assinar o que já estava decidido.
V. A distribuição dos ofícios
Estabelecida a epistemologia, resta o inventário das funções, e o inventário é o momento em que a acusação de idolatria deixa de ser retórica e passa a ser aritmética. A pergunta correta não é se Roma chama Maria de deusa, porque evidentemente não chama. A pergunta é quais ofícios religiosos permanecem exclusivos de Deus depois que o sistema mariano termina de distribuir.
O Catecismo ensina que a maternidade de Maria na ordem da graça "continua ininterruptamente desde o consentimento que ela deu com fidelidade na Anunciação", que ao ser elevada ao céu ela não depôs esse ofício salvífico, e que "pela sua múltipla intercessão continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna"; conclui declarando que a Virgem é invocada na Igreja sob os títulos de Advogada, Auxiliadora, Benfeitora e Medianeira.16Catecismo da Igreja Católica, n. 969, citando Lumen Gentium, n. 62. Tradução a partir da edição oficial disponível em vatican.va. O mesmo texto afirma que a devoção da Igreja à Virgem "é intrínseca ao culto cristão" e recorda que à proteção dela os fiéis recorrem em todos os seus perigos e necessidades.17Ibid., n. 971. Na quarta parte, ao tratar da oração, ensina que a Maria "podemos confiar todas as nossas preocupações e pedidos", e explica a segunda metade da Ave-Maria dizendo que o fiel recorre à Mãe de misericórdia e lhe confia desde agora a hora de sua morte, para que ela o acolha então como mãe.18Ibid., n. 2677. Texto oficial em português, vatican.va.
Compare-se agora essa lista com a distribuição estabelecida pela revelação, item por item, sem pressa. Advogado junto ao Pai é Jesus Cristo, o justo (1 João 2.1); Auxiliador ou Consolador enviado pelo Pai é o Espírito Santo (João 14.16); refúgio e fortaleza é Deus, socorro bem presente na angústia (Salmo 46.1). Quanto ao quarto título, a Escritura o tranca com uma cláusula numérica que nenhuma exegese contorna: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem" (1 Timóteo 2.5). Os quatro ofícios oficialmente atribuídos à criatura correspondem, um a um, sem sobra e sem lacuna, a ofícios que a revelação atribui às pessoas divinas, e a correspondência exata é o que impede tratar o fenômeno como excesso devocional a ser podado.
A defesa romana é conhecida e o Catecismo a formula: a função materna de Maria não obscurece nem diminui a mediação única de Cristo, dela flui, dela depende inteiramente e dela extrai todo o seu poder.19Ibid., n. 970. A defesa falha por uma razão que a história das religiões torna evidente e que nada tem de polêmica. O politeísmo antigo raramente atribuía independência absoluta a suas divindades secundárias; elas recebiam poderes derivados, jurisdições limitadas, funções delegadas e patrocínios territoriais, e continuavam sendo ídolos. A subordinação metafísica jamais licenciou culto algum. Uma medianeira subordinada permanece uma medianeira não instituída, e o problema nunca esteve no grau de autonomia, mas na ausência de mandato.
A distribuição, aliás, vai bem além da intercessão. Ad Caeli Reginam atribui à Virgem o poder de "dispensar os tesouros do reino do Redentor divino",20Ad Caeli Reginam, n. 37. cita Leão XIII para dizer que lhe foi concedido um poder "quase ilimitado" na distribuição das graças e Pio X para acrescentar que ela desempenha essa missão "como por direito materno".21Ibid., n. 40, citando Leão XIII, Adiutricem populi, e Pio X, Ad diem illum. O mesmo documento reproduz, sem reservas, a formulação medieval de Eadmero segundo a qual, assim como Deus é Pai e Senhor de tudo por criar todas as coisas com seu poder, "Maria, reparando todas as coisas com os seus méritos, é mãe e senhora de tudo", reconstituindo-as em sua dignidade primitiva "pela graça, que lhes mereceu".22Ibid., n. 35, citando Eadmero, De excellentia Virginis Mariae, c. 11. E ao advertir contra os exageros, a encíclica define o limite oposto como o erro de subestimar "a singular, sublime, e mesmo quase divina dignidade da Mãe de Deus".23Ibid., n. 42. Quase divina é a expressão do documento, e ela mede com exatidão a distância que o sistema percorreu.
Duas objeções encerram a questão, e ambas são estruturais, o que significa que nenhuma reforma de linguagem, nenhuma nota doutrinal moderadora e nenhuma poda de excessos populares consegue respondê-las sem demolir o edifício que pretendem preservar.
A primeira é o problema da audição. A prática católica supõe que Maria receba, no mesmo instante, súplicas interiores formuladas em centenas de idiomas por milhões de pessoas em todos os pontos do globo, incluindo pedidos não pronunciados, e que discrimine cada uma delas. A capacidade descrita é onisciência receptiva, atributo que nenhuma criatura pode possuir, porque conhecer exaustivamente os pensamentos de todos os homens simultaneamente é conhecer como Deus conhece. Roma não pode conceder o atributo sem divinizar a criatura, e não pode negá-lo sem esvaziar a prática que ordena. O dilema não tem terceira via: ou a doutrina admite uma segunda onisciente, ou a devoção universal é dirigida a alguém que não a ouve.
A segunda é a causalidade. Se Deus é a causa imediata de tudo quanto acontece, nenhuma criatura possui poder causal, próprio ou delegado, e a oração de um santo jamais foi a causa de coisa alguma. A oração dos vivos é ocasião na qual Deus opera o que decretou operar, e não influência exercida sobre a vontade divina; a criatura glorificada não adquire, ao morrer, uma causalidade que não possuía enquanto viva. Todo o sistema de patronato desaba nesse ponto, e desaba sem que se precise recorrer a uma única comparação histórica. Padroeiros, santuários, promessas, distribuição de graças, proteção territorial: nada disso pode existir num universo em que Deus é a causa imediata, porque nada disso teria o que fazer.
A isso se soma o vínculo soteriológico que a polêmica costuma ignorar. A mariologia é a superestrutura devocional da graça condicionada. Onde a graça depende da cooperação humana, ela se torna quantidade administrável, e o que é administrável exige administradores, canais, depósitos e distribuidores. O monergismo torna toda essa engenharia supérflua de uma vez, porque a graça que salva não é substância a ser dispensada por ninguém, e sim ato soberano de Deus sobre o eleito. Quem crê que a salvação é obra exclusiva de Deus não tem função para atribuir a mediador algum, e é por isso que a devoção mariana jamais floresceu onde a predestinação foi levada a sério.
VI. A Grande Mãe e o teste da tradução
Somente agora, proferida a sentença e fechada a demonstração, a religião comparada pode entrar, e ela entra na posição correta, que é a de consequência prevista pela doutrina bíblica, jamais a de premissa que a sustente. A distinção é decisiva. Semelhança de formas entre cultos é dado indutivo, e a indução não estabelece proposição alguma; de mil deusas mães não se deduz coisa nenhuma sobre a mariologia. Quem apoia a acusação na comparação apoia parte do peso sobre uma perna de papel, e qualquer apologista treinado a quebra observando que analogia não é descendência.
A direção correta é inversa. A Escritura ensina que os homens, suprimindo a verdade, permutaram a glória do Deus incorruptível por semelhança da imagem de homem corruptível (Romanos 1.23), e que os sacrifícios das nações têm destinatário real, ainda que o ídolo em si nada seja (1 Coríntios 10.20). Se a doutrina é verdadeira, então é previsível que sistemas religiosos separados por milênios e continentes produzam configurações estruturalmente semelhantes, pois a fábrica é a mesma e o material humano é o mesmo. A convergência entre a mariologia e os cultos da mãe celeste não julga a mariologia; a mariologia já foi julgada, e a convergência apenas confirma que a Escritura descreveu corretamente o comportamento do homem religioso.
Feita a inversão, a comparação torna-se útil e imune a ataque. A categoria da mãe celeste é recorrente e razoavelmente estável: mãe do deus ou do rei, protetora dos homens, senhora compassiva, rainha do céu, mulher com a criança ao colo, mediadora entre a divindade superior e os suplicantes, padroeira de cidades e territórios, destinatária de oferendas e promessas. Ísis, Cibele, Astarte, Deméter e outras ocupam essa região com variações locais. Que a iconografia de Ísis amamentando Hórus tenha oferecido precedente visual a representações cristãs egípcias da Virgem com o menino é assunto de história da arte e nada prova por si; o que importa é que a região estrutural é a mesma, e que a religião a ocupa sempre que a proposição revelada deixa de governar.
O mesmo vale para o feminino metafísico. Sofia, no gnosticismo, é entidade ligada à sabedoria, à queda e ao processo de retorno; a Shekiná recebe, na mística judaica posterior, interpretação feminina e função cósmica; Shakti, em sistemas hindus, é potência feminina divina e energia manifestadora do universo. Os sistemas são distintos e não devem ser fundidos, sob pena de se produzir a comparação preguiçosa que já desmoralizou tanta polêmica protestante. O que se compara são funções religiosas análogas dentro de arquiteturas diferentes.
Daqui se extrai o teste que, a meu ver, encerra a questão inteira, e que chamarei de teste da tradução. Tome-se qualquer artigo do credo cristão e tente-se traduzi-lo, sem resto, para a linguagem do simbolismo universal, do princípio metafísico feminino ou do arquétipo psíquico. A tentativa fracassa em todos os casos, porque cada artigo carrega proposições históricas e jurídicas irredutíveis: um homem determinado morreu sob um magistrado determinado, num dia determinado, para satisfazer uma exigência determinada da justiça de Deus. Nenhum simbolismo absorve isso sem destruí-lo. Aplique-se agora o mesmo teste à mariologia dogmática, e a tradução se completa sem sobra: preservação da matéria contra a corrupção, elevação corpórea, coroação cósmica, maternidade universal, receptividade, misericórdia acolhedora, princípio imanente que reconduz o disperso à unidade. Tudo passa. O perenialismo não precisa violentar a figura mariana para reinterpretá-la como manifestação da Feminilidade divina; basta-lhe retirar as últimas ressalvas cristológicas e dizer em voz alta o que a estrutura simbólica já sugeria. A leitura psicológica que interpreta a definição da Assunção como integração do feminino, do corpo e da matéria na imagem cristã de Deus opera com a mesma facilidade, e pela mesma razão.
A conclusão a extrair não é que o esoterista tenha razão. Se a psicologia arquetípica possui autoridade para dissolver a Assunção em símbolo, ela possui exatamente a mesma autoridade para dissolver a ressurreição em mito solar, e aceitá-la como testemunha de acusação seria entregar o próprio evangelho ao tribunal que se pretende recusar. O esoterista aqui é testemunha hostil capturada, e será julgado com o réu que ajudou a descrever. A conclusão a extrair é outra e é interna: a mariologia é traduzível sem resto porque nasceu de imagem, e imagem é o material nativo do símbolo. Aquilo que foi construído a partir de mosaicos, tronos, mantos e coroas retorna sem esforço ao vocabulário dos mosaicos, tronos, mantos e coroas. Aquilo que foi construído a partir de proposição resiste, porque proposição não se dissolve em figura nunca.
Um último dado confirma o diagnóstico, e é o dado que qualquer brasileiro tem diante dos olhos sem precisar de erudição alguma para verificá-lo: Nossa Senhora Aparecida, de Fátima, de Guadalupe, de Lourdes, do Carmo, das Dores, do Perpétuo Socorro, Desatadora dos Nós. Oficialmente, trata-se de uma só pessoa sob títulos diversos, e a explicação seria satisfatória se a prática religiosa a confirmasse. Funcionalmente, porém, cada título possui imagem própria, santuário próprio, festa própria, especialidade devocional própria, promessas próprias, geografia própria e comunidade de devotos própria. O devoto de uma nem sempre é devoto da outra, e o pedido se dirige ao título, não à pessoa. Isso reproduz a diferenciação territorial de epítetos e manifestações locais que caracterizava as divindades antigas, e produz, sob confissão monoteísta impecável, um politeísmo funcional: um só Deus na ontologia, uma multidão de agentes sobrenaturais especializados na prática.
VII. A serva que a Escritura mostra
Destruir a Maria romana sem restituir a Maria bíblica seria trabalho feito pela metade, e seria injusto com a mulher que a operação inteira sepultou sob camadas de tinta, ouro e decreto.
A mulher que as Escrituras apresentam declara-se serva do Senhor e submete-se à palavra que lhe é anunciada: "Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra" (Lucas 1.38). Confessa necessitar de salvação, e o confessa em ato de louvor: "A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador" (Lucas 1.46-47). Nenhuma criatura preservada de toda a mancha desde a concepção teria motivo para chamar Deus de seu Salvador, e a objeção de que ela foi salva preventivamente é precisamente o tipo de construção que a seção IV desmontou. Sua última palavra registrada nos evangelhos aponta para outro: "Fazei tudo quanto ele vos disser" (João 2.5). Aparece entre os discípulos reunidos em oração, nomeada sem destaque cultual, no meio de uma lista (Atos 1.14). E depois disso desaparece do registro apostólico. Nenhuma epístola a menciona como objeto de invocação, nenhum apóstolo lhe dirige palavra, nenhuma instrução manda buscar sua proteção, nenhum texto sequer informa que ela ouve os vivos.
Há mais, e é o texto que a polêmica costuma esquecer. Quando uma mulher da multidão exalta a mãe de Jesus com fórmula devocional perfeita, ele a corrige na hora: "Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste. Mas ele disse: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam" (Lucas 11.27-28). A cena é a refutação antecipada de todo o sistema, e vinda de quem tinha autoridade para instituí-lo caso quisesse. Ofereceram-lhe a beatificação de sua mãe pela via da carne e da imagem, e ele deslocou a bem-aventurança para a audição da palavra. O Filho recusou fundar a devoção que a instituição viria a declarar intrínseca ao culto cristão.
O padrão se repete em cada oportunidade que a Escritura tinha de autorizar reverência religiosa a criaturas. Quando João se prostra diante do anjo, o anjo não distingue graus de culto nem esclarece que aquilo era permitido em regime de veneração inferior; ele ordena: "Olha, não faças tal; porque eu sou conservo teu, e de teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus" (Apocalipse 22.9). Este é o lugar exato para julgar a tríplice distinção entre latria, dulia e hiperdulia. O problema dessas categorias não é que os termos faltem na Bíblia; muitos termos úteis faltam. O problema é que a Escritura não institui graus de culto religioso dirigidos a seres celestiais criados, e que a natureza de um ato é determinada por seu objeto, conteúdo e finalidade, jamais pelo nome que se lhe atribui. Quem oferece súplica, louvor, confiança sobrenatural, consagração e esperança da hora da morte a uma criatura, praticou culto, e nenhum rótulo técnico converte isso em cortesia. A hiperdulia é prática extrabíblica protegida por palavra técnica, e a função da palavra é impedir que o fiel reconheça o que faz.
Resta nomear o que se fez. A Escritura chama a operação por seu nome ao descrever o método do adversário, que não começa negando Deus, mas questionando o que ele disse: "É assim que Deus disse?" (Gênesis 3.1). O passo seguinte contradiz a proposição revelada, e o terceiro promete um bem real por caminho não instituído. É a estrutura completa da mariologia dogmática, transposta para a mediação. Nenhuma etapa exigiu que se abandonasse o nome de Cristo; exigiu apenas que se substituísse "Deus disse" por "seria conveniente que Deus tivesse dito", e o mesmo que se transfigura em anjo de luz (2 Coríntios 11.14) não precisa de mais nada. Chamar isso de satânico constitui a classificação exata de um procedimento cuja forma a Escritura descreve, cujo autor ela nomeia e cujo destinatário ela identifica, e quem preferir tomar a palavra por insulto atirado ao acaso terá de indicar em que ponto preciso a descrição falha.
A honra verdadeira devida a Maria consiste em crer no Deus em que ela creu, confessar o Salvador de que ela declarou precisar, obedecer ao Filho a quem ela mandou obedecer, e recusar-lhe tudo aquilo que ela jamais reivindicou. A maior desonra que se lhe pode fazer consiste em obrigá-la a contradizer o próprio testemunho, e deixar de invocá-la sequer se aproxima disso. A mulher que se chamou serva foi coroada rainha do universo; a que confessou necessitar de Salvador foi declarada isenta de toda mancha; a que mandou os homens obedecerem a Cristo passou a receber os pedidos que deveriam ser dirigidos a ele. Uma delas está nas Escrituras. A outra foi montada em sete etapas, e a primeira delas foi uma imagem.
Contra tudo isso permanece a sentença que decide sem apelação, porque ela não discute méritos, dignidades nem conveniências, e recusa de antemão qualquer arranjo que reparta o que não se reparte: "Eu sou o SENHOR; este é o meu nome; a minha glória, pois, não darei a outrem, nem o meu louvor às imagens de escultura" (Isaías 42.8).
Notas
Notas
Pio XII, Ad Caeli Reginam, n. 33. Texto oficial em português, vatican.va.
↩Ibid., n. 33, citando João Damasceno, De fide orthodoxa, l. IV, c. 14.
↩Ibid., n. 31.
↩Ibid., n. 21.
↩Ibid., n. 37.
↩Pio XII, Munificentissimus Deus, n. 45: quem ousar negar ou pôr em dúvida a definição, "saiba que naufraga na fé divina e católica". Texto oficial em português, vatican.va.
↩Ibid., n. 15.
↩Ad Caeli Reginam, n. 44.
↩Ibid., n. 32.
↩Ibid., n. 46.
↩Munificentissimus Deus, n. 21, citando João Damasceno, Encomium in Dormitionem Dei Genetricis, hom. II, 14.
↩Ibid., n. 37, citando Francisco Suárez, In tertiam partem D. Thomae, q. 27, art. 2, disp. 3, sect. 5, n. 31.
↩Ibid., n. 12.
↩Ibid., n. 12.
↩Ibid., n. 41.
↩Catecismo da Igreja Católica, n. 969, citando Lumen Gentium, n. 62. Tradução a partir da edição oficial disponível em vatican.va.
↩Ibid., n. 971.
↩Ibid., n. 2677. Texto oficial em português, vatican.va.
↩Ibid., n. 970.
↩Ad Caeli Reginam, n. 37.
↩Ibid., n. 40, citando Leão XIII, Adiutricem populi, e Pio X, Ad diem illum.
↩Ibid., n. 35, citando Eadmero, De excellentia Virginis Mariae, c. 11.
↩Ibid., n. 42.
↩