Destrói-os na tua verdade — Salmo 54:5

Filosofia · Epistemologia

A Dissolução do Problema de Gettier

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A análise clássica do conhecimento, que Platão já ensaia no Teeteto1Platão, Teeteto 201, lugar clássico da definição do conhecimento como opinião verdadeira acompanhada de razão. e que Chisholm e Ayer formalizam no século XX, reduz o conhecer à conjunção de três condições, a saber, a verdade da proposição, a crença do sujeito nela e a justificação dessa crença; Gettier, em 1963, mostrou com dois exemplos que as três condições podem coexistir sem que haja conhecimento, e concluiu que a análise falha por insuficiência.2Edmund L. Gettier, "Is Justified True Belief Knowledge?", Analysis 23 (1963), 121-123.

O escrituralista não recebe essa análise nos termos em que Gettier a ataca, porque recusa que a justificação relevante ao conhecimento seja aquela que os exemplos pressupõem. O conhecimento é posse da verdade proposicional por uma mente, e a verdade só se conhece quando procede do único axioma que a garante, isto é, da revelação escrita, ou quando dela se deduz por inferência que preserva a verdade. Sensação e indução não geram conhecimento; geram, quando muito, opinião, e a opinião que coincide com a verdade não se converte em ciência pela coincidência.

Examinada a justificação que opera nos dois casos, revela-se sua natureza inteiramente empírica. No primeiro, Smith crê que o homem que conseguirá o emprego tem dez moedas no bolso porque o presidente da empresa lhe assegurou a escolha de Jones e porque ele mesmo contou as moedas no bolso de Jones; ambas as bases são testemunho e sensação, e nenhuma delas transmite verdade com necessidade. No segundo, Smith crê que Jones possui um Ford porque assim o observou no passado e porque Jones lhe ofereceu uma carona ao volante de um; trata-se de indução a partir de casos observados, que é a forma lógica de afirmar o consequente, e portanto falácia.

O segundo caso merece atenção redobrada, porque nele a inferência que Smith executa é formalmente válida. De "Jones possui um Ford", Smith deduz por introdução da disjunção que ou Jones possui um Ford ou Brown está em Barcelona, e a regra é impecável, pois preserva a verdade sempre que a premissa seja verdadeira. O passo dedutivo permanece íntegro, e o defeito localiza-se na premissa que Smith aceitou por via empírica e que de fato é falsa, pois Jones dirige um carro alugado. A conclusão disjuntiva sai verdadeira por um motivo que Smith ignora, a saber, a presença real de Brown em Barcelona, de sorte que a verdade da conclusão fica desligada do fundamento pelo qual Smith a sustenta.

Os dois casos ensinam, portanto, uma lição que o escrituralista já entende. Onde a justificação é não demonstrativa, a verdade da proposição crida permanece acidental em relação ao motivo pelo qual se crê, e essa contingência abre o espaço exato em que a sorte epistêmica se instala. O testemunho pode ser falso, a amostra observada pode não se repetir, a aparência pode enganar, e a proposição ainda pode sair verdadeira por uma causa estranha ao sujeito. A coincidência não gera ciência. Gettier, longe de refutar uma teoria correta do conhecimento, exibiu em miniatura a falência de toda epistemologia que funda o conhecer na sensação e na probabilidade.

A definição que o escrituralista sustenta não sofre o mesmo golpe, porque nela a justificação significa dedução válida a partir de um axioma infalível, e a dedução válida a partir de premissas verdadeiras entrega conclusão verdadeira por necessidade formal, nunca por acaso. Quando a Escritura afirma uma proposição, ou quando dela se extrai outra por inferência que preserva a verdade, a verdade da conclusão está garantida pela verdade do princípio e pela validade do trânsito, e não sobra intervalo algum para que a sorte decida o resultado. O caso de Gettier só nasce onde a inferência é frouxa; retirada a frouxidão, retira-se com ela o caso.

Por isso o conhecimento tem princípio fora do homem e antes do homem. Em Cristo, diz o apóstolo, estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência; se todo o tesouro do conhecer está guardado na revelação de Deus, nenhuma quantidade de moedas contadas no bolso alheio, nem qualquer soma de automóveis vistos no passado, alcança o estatuto de ciência enquanto não se ancorar naquele princípio.

O problema de Gettier acusa o empirismo que o produziu. A crença verdadeira justificada falha como definição do conhecer sempre que a justificação for empírica, porque a justificação empírica jamais amarra a verdade da proposição ao fundamento da crença; e falha de modo instrutivo, pois torna visível, em dois exemplos breves, aquilo que a tradição escrituralista de Clark e Cheung sustenta contra todo o sensualismo, que a sensação não produz ciência e que só a revelação, com as deduções que dela procedem, merece o nome de conhecimento. Quem quiser conservar a análise tripartite deve, então, purgar a palavra justificação de todo resíduo empírico e reservá-la à demonstração; feita essa purga, os contraexemplos de Gettier não têm onde surgir, e a definição sobrevive intacta no único terreno em que sempre pôde valer.

Notas

  1. Platão, Teeteto 201, lugar clássico da definição do conhecimento como opinião verdadeira acompanhada de razão.

  2. Edmund L. Gettier, "Is Justified True Belief Knowledge?", Analysis 23 (1963), 121-123.